Silvia Cintra + Box4

MAM do Rio de Janeiro abre retrospectiva de Amilcar de Castro25 Nov 2014

A partir de 26 de novembro, o MAM do Rio de Janeiro vai abrigar uma grande retrospectiva de um dos grandes mestres do neoconcretismo, o mineiro Amilcar de Castro.  Além de levar quatro esculturas de diversos períodos do artista - todas obras monumentais, algumas com mais de 10 metros - para os jardins do museu, a mostra também reunirá nos salões internos da instituição mais de 50 obras inéditas para o público carioca. A última retrospectiva de Amilcar aconteceu há 25 anos, no Paço Imperial. Com curadoria do crítico Paulo Sérgio Duarte, a exposição, que vai até 8 de fevereiro de 2015, é uma oportunidade única para se ter um panorama do trabalho de um dos maiores nomes da Arte Brasileira. 



Veja o release do curador da mostra, Paulo Sergio Duarte:

"Amilcar de Castro e a coerência do método

Estamos diante de um dos elevados momentos da arte da segunda metade do século XX: a obra de Amilcar de Castro (Paraisópolis, 1920 – Belo Horizonte, 2002). Que essa obra tenha se materializado num país de periferia, com mais da metade de sua população habitando a zona rural na década de 1950 (segundo o censo de 2010, hoje, são um pouco menos de 16%), é um dos problemas que críticos e historiadores da arte do Hemisfério Norte só agora começam a tentar compreender. O Manifesto neoconcreto (1959), escrito pelo poeta e crítico Ferreira Gullar e assinado pelo autor, por Amilcar de Castro, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanúdis; a Teoria do não objeto (1959), de Gullar, e um conjunto de textos de Mário Pedrosa, escritos ao longo da década de 1950, testemunhavam sobre a emancipação crítica e teórica sobre a arte no Brasil. O Manifesto neoconcreto é um momento privilegiado dessa reflexão ao se opor ao positivismo naïve dos teóricos do concretismo e seu “objetivismo”.

Para esse nível de compreensão da arte ser atingido, num país que vivia o empenho do segundo governo Vargas e, logo depois, o Programa de Metas de Juscelino Kubitschek com a construção de Brasília, era necessário que, além da aventura arquitetônica, houvesse um conjunto de obras de arte significativo, ainda que de circulação extremamente restrita pela ausência de um comprometimento efetivo na formação de coleções públicas. Toda a rica reflexão crítica e teórica se fundava, sobretudo, numa produção local. A obra de Amilcar de Castro é um dos pilares dessa produção. E não é exagerado dizer que é um dos elevados momentos da arte da segunda metade do século XX.

Retrospectivamente, observando-se com a distância de várias décadas, a produção escultórica desse período, tanto a europeia, a norte-americana, como a japonesa, tem-se a ideia da dimensão da contribuição de Amilcar que se manifesta com destaque desde a 2ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1953. O poder da obra, sua potência poética, reside na coerência do método, perseguido ao longo de toda a trajetória do trabalho. Na escultura, são raríssimos os trabalhos em que se encontra a solda. O método foi partir de um plano quadrado, retangular, de um quadrilátero irregular ou circular, realizar um corte e a dobra, gerando não apenas a tridimensionalidade, mas, sobretudo, uma nova experiência do espaço. As possibilidades desse método, ao visitante, estão demonstradas desde esculturas monumentais no exterior do museu, nas de grande e pequeno porte, e nas 140 esculturas que têm em comum não se repetir e ter ao menos em uma de suas dimensões 23 cm.

Ao método de corte e dobra, a partir da década de 1980, vem se somar o método da utilização de blocos de aço e madeira no qual serão realizados apenas cortes que permitem, pelo deslocamento entre as partes, diversos exercícios de experiência da escultura. Alguns desses trabalhos foram também realizados em mármore.

A esses se juntam as experiências de escultura em vidro, raramente apreciadas, e os magníficos “desenhos”, como Amilcar chamava suas pinturas sobre tela e sobre papel.

Espero que aquele que estiver aqui lendo esse texto volte a visitar essa magnífica lição sobre a arte que é a obra de Amilcar de Castro."


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